Sai da Sombra

Gente brilhante que não tem medo de se expor

Isabella W. Cunha

Ela voa alto, rumo ao infinito e além

  • Eloá Orazem
  • Soraya Albuquerque
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São cliques e mais cliques que nos levam a diversas páginas, mas a lugar nenhum: é muito touch para pouco toque. Ou era? Quem nos faz repensar o tempo verbal dos nossos velhos hábitos modernos é Isabella W. Cunha, a carioca de 31 anos que ligou o mundo real ao virtual – ou vice-versa. Fundadora do + Asas, uma plataforma de experiências únicas, Isabella nos prova o óbvio: que em tempos de muros e fronteiras, as pontes continuam sendo a nossa melhor (e possivelmente única) solução. Conectando curiosos a anfitriões locais apaixonados e apaixonantes, o projeto idealizado pela carioca tem lá a sua parcela de risco: não mais conseguir voltar à realidade previsível de quem faz turismo sem sentido e, principalmente, sem sentir. A propaganda enganosa de um é o dia-a-dia de outro. Ou, nesse caso, de outra – Isabella te dá asa. Mesmo.

Como e quando foi que surgiu a ideia de fundar o +Asas?
A ideia surgiu em 2012, mas a plataforma foi ao ar em 2013. Eu morei na Austrália em 2006, e desde que voltei tenho recebido muitos amigos aqui. Sempre gostei muito de mostrar a cidade para os amigos e colegas, e recebia feedbacks positivos sobre o meu jeito de mostrar o Rio para eles. Isso se tornou um hobby, porque eu adorava mesmo tudo aquilo. Em paralelo, continuava ativa no mercado de trabalho, e, em 2010, entrei para o time do Peixe Urbano, onde fiquei por dois anos e aprendi muito sobre empreendedorismo. A comunhão de todas essas experiências resultou no projeto do +Asas.

E a empresa começou voando alto, né? Acelerada e tal…
Pois é, fui convidada a ser acelerada em Boston, numa incubadora chamada International Entrepreneur Center. Aprendi muito, foi um divisor de águas para mim e para a empresa. Recentemente tivemos outra boa notícia: entre 700 empresas inscritas, a nossa foi uma das cinco selecionadas pela maior aceleradora da América latina, a Aceleratech.

Conta pra gente o que você aprendeu em Boston que mudou as regras do jogo.
Na verdade foi uma coisa muito fluida. A gente voltou de lá sabendo que, sem investimento, não conseguiríamos crescer. Então nossa estratégia foi vender para pessoa jurídica e, com aquele capital, investir na venda para pessoa física. Logo que voltamos dos Estados Unidos, fechamos um contrato com a Farm, que foi o nosso primeiro cliente. Nós criávamos experiências únicas para os principais clientes da marca. Graças a essa parceria, abrimos caminho com Uber, Airbnb, Nike, Coca-Cola e outras. Com o aval dessas grandes empresas, o caminho foi ficando mais fácil e portas foram se abrindo.

Qual a sua experiência predileta?
Seria injusta dizer uma só, porque depende do dia. Tem momentos que a gente quer mais festa ou um passeio animado com amigos – e aí cai bem uma roda de samba e experiência com drinks. Mas tem horas que você quer relaxar, e uma trilha com meditação é uma boa pedida, porque você volta recarregado. Tá num dia que quer explorar coisas novas? Tem a experiência de comidinhas do Rio, em que você prova várias releituras da gastronomia local na casa de uma chef. Acho que depende mesmo do estado de espirito, porque tem para todos os gostos, de esporte radical a coisas mais relax.

E o +Asas acabou te ensinando e mostrando ainda mais o Rio, né?
Pois é, através do +Asas eu pude conhecer mais e melhor a minha própria cidade. Quase todas as experiências que temos disponíveis, eu tive a chance de provar.

O que acha desse novo Rio que conheceu?
Quando eu voltei da Austrália, o meu olhar para a cidade mudou. Acho que eu fiquei com um olhar mais gringo, com sede de explorar. Eu lapidei esse olhar, eu comecei a ver coisas que a gente se acostuma quando mora num determinado local. Quando você se coloca no lugar de turista, acaba descobrindo novidades o tempo todo. É nunca estar satisfeito.

Esse olhar infantilizado, no sentido da curiosidade, você leva para qualquer lugar que viaja?
Totalmente. Se eu vou em alguma casa bacana, ja fico pensando que experiência interessante poderia ocorrer ali. Outro dia uma amiga me apresentou a uma casa linda, na Avenida Niemeyer, em que a gente iria fazer uma experiência gastronômica. Mas, ao sair do imóvel, a proprietária nos contou que a Elis Regina foi uma das moradoras. Na hora pensamos: “vamos cancelar essa coisa de gastronomia e vamos fazer uma de música”. A ideia vingou e promovemos naquela casa o Bossa Sunset (veja um vídeo aqui), que foi um sucesso absoluto. E foi muita coincidência, porque, na mesma época, tava rolando um musical sobre a Elis e muita gente que ia à peça queria também participar da nossa experiência. Acabamos na primeira página do Estadão e recebemos uma enxurrada de feedbacks positivo. Talvez, se eu não tivesse ligada em construir experiências em qualquer lugar, eu não teria tido esse insight de fazer uma coisa de música. A gente não tem museu sobre a Bossa Nova no Brasil, então construir experiências para cuidar da história, da nossa música e cultura é uma honra.

Você sempre foi uma pessoa mais ligada a sentir do que a ter?
Sem dúvida, sempre. O que eu mais gosto de fazer, desde pequena, é viajar com amigos. Eu era sempre aquela que puxava as ideias, que propunha coisas novas. O passeio do colégio mais legal foi pra um manguezal, quando rolou uma “briga” de lama. Sempre gostei de viver as coisas. Se você ganha um presente, no ano seguinte aquilo já não é mais tão legal, você já quer trocar, você nunca tá satisfeito. Uma viagem vai ser sempre incrível, porque você viveu algo único, em um lugar xis, com aquelas pessoas específicas. É algo que não tem preço; é muito mais valioso, porque a gente acaba guardando na memória. Muito mais forte do que quando você ganha alguma coisa. O ato de usufruir aquilo é muito mais compartilhado quando você vive alguma coisa do que quando você compra. Por essas e outras, eu vivo com esse mantra: comprar coisas é bem menos interessante.

E alguma vivência foi particularmente marcante?
Eu fiz um projeto social que foi muito especial, chamava Peixe do Bem. Era basicamente um crowdfunding: a gente viu que 20 milhões de pessoas estavam cadastradas no site, então se cada uma doasse R$ 1 a gente conseguiria uma “fortuna” para ajudar as pessoas. Foram quatro edições dessa iniciativa, mas no segundo ano o montante arrecadado foi suficiente para construir mais de trezentas casas na época em que teve um desabamento na região serrana. Isso foi muio marcante para ver o poder que a gente tem e que às vezes a gente não usa. Pensar nos outros, em quem tem menos que a gente, e fazer bom uso do que temos nas mãos. Isso me nutriu muito.

Quem chega desavisado pode pensar que o +Asas é algo para poucos afortunados. As propostas lá cabem em todos os bolsos?
Na verdade, se você for pensar em termos de entretenimento, não é nada caro: o ticket médio é de R$ 125. E, na verdade, o anfitrião pode colocar o preço que ele quiser. Caso queira cobrar R$ 10, ele cobra. A gente ganha um percentual do valor estipulado pelo próprio anfitrião, então não temos a menor restrição no que diz respeito a preço e afins.

Mas todas as experiências precisam ser aprovadas antes, né?
Nesse primeiro momento, sim. Mas a gente está evoluindo a plataforma para chegar num ponto que isso não será mais necessário. O objetivo é que qualquer interessado inscreva sua ideia/experiência e a própria rede de usuários faça o“filtro”, por meio de avaliações e comentários. É como funciona o Uber, mais ou menos: qualquer pessoa pode ser um motorista parceiro, mas se ele não desempenhar bem esse papel e receber duas ou mais avaliações negativas e críticas sérias, ele é excluído. A gente quer dar o poder de escolha para a nossa comunidade.

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Você acha que os estudos nos Estados Unidos foram definitivos para o sucesso do +Asas?
Sem dúvida, porque é muito importante ter exemplo – sobretudo de gente que sabe o que pode dar errado. Lá tive a oportunidade de conversar com muita gente que montou o próprio negócio e sabe dos tropeços mais comuns, e essa troca de conhecimento minimiza suas chances de erro. Foi um divisor de águas.

Você sentiu dificuldade em aplicar no mercado brasileiro o que você aprendeu lá?
Na verdade, o que eu aprendi em Boston foi sobre business, não teve um estudo sobre o mercado brasileiro ou americano. Eu estudei business de maneira geral: como vender, como conquistar o cliente. Você tem que entender e reconhecer seu problema e buscar a solução. O vendedor é um psicólogo. Eu aprendi algo mais geral, não essas particularidades de cada país. Mas o que eu percebi é que aqui no Brasil você precisa conhecer gente, né? Nos Estados Unidos, se você chega com uma ideia que pode realmente gerar lucro, o presidente de uma empresa vai lhe atender. Aqui, para você chegar na mesa do cara, você precisa conhecer alguém. É o país do jeitinho, né? Essa é a principal diferença entre fazer business no Brasil e nos Estados Unidos.

O Brasil estava pronto para uma empresa como a sua, que propõe um novo modelo de negócios e experiências tão únicas?
Um dos maiores desafios do +Asas ainda é educar o mercado e provar como isso é mais bacana. Acredito que ainda estamos no início de um movimento que promove o ser mais do que o ter. Mas eu acredito também que é melhor ser o visionário, ser quem puxa e abre o mercado. Mas é um super desafio.

E o que as pessoas mais querem?
Querem sentir. A gente tá num mundo que as pessoas estão cada vez mais sós, por conta da tecnologia, das redes sociais… O que a gente propõem é o estímulo dos sentidos. Tem uma experiência que é o piquenique dos sentidos, e isso provoca nas pessoas um preenchimento que eu não vejo quando a gente compra alguma coisa. E é isso que eu tenho em mente: envolver os clientes por meio da imersão de sentidos.

Está gostando da entrevista? Que tal dar uma pausa pra escutar a playlist que a Isabella criou especialmente pra gente com as músicas que são sinônimo de uma vida solar

Quando se propõem a viver essas experiências, as pessoas se desconectam da tecnologia?
Sempre no início das vivências, a gente pede para que as pessoas só tirem foto do que realmente chamar a atenção delas; para que estejam presente mesmo. A gente é muito mais feliz presente do que hiperconectado.

E rolou algum feedback gratificante, que fez todo o esforço valer a pena?
O nosso primeiro cliente foi um cara meio japonês e meio alemão. Por se tratar do primeiro comprador, eu acompanhei a anfitriã. A gente foi para Niterói e, no alto da trilha, ela nos instruiu a fechar os olhos, focar na respiração e a sentir o mundo ao nosso redor. Sair daquele lugar e deixar o pensamento voar. Quando esse moço abriu os olhos, ele nos disse que há muito tempo não sentia algo parecido. Disse que nós fizemos com que ele sonhasse acordado. Aquilo me fez ter a certeza de que eu estava no caminho certo, foi mágico e me inspirou muito.

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Tem alguma experiência (no mundo, não necessariamente no +Asas) que você quer muito viver?
Sempre tive vontade de viajar o mundo velejando. Um dia eu ainda cruzo o oceano a bordo de um barco.

Você acha que o fato de o Rio de Janeiro ser uma cidade muito solar deixa as pessoas mais abertas a novas experiências?
Acho que provar e viver coisas diferentes não diz respeito à sazonalidade, mas acho também que, no verão, as pessoas estão obviamente mais predispostas a experimentar atividades ao ar livre; a fazer qualquer coisa nova fora de casa.

Você “saiu” do Rio para morar na Austrália, que é bem solar também, podemos assumir que você é uma caçadora de verões?
Olha, eu sou supersolar! Estar ao sol mexe até com o meu humor, me deixa muito mais feliz. Agora que estou passando uma temporada em São Paulo, que obviamente não é tão solar quanto o Rio, tenho de me adaptar às coisas, mas o processo está sendo muito bacana, porque tem suas vantagens também.

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